Publicado em 09/02/2010
Fonte: JC on line
Alcides não acontece todos os dias. É símbolo. Desses que não são
inventados. Daqueles que orgulha, que faz todo mundo repensar a vida,
as oportunidades, os acertos, os erros. Alcides é história boa,
daquelas que enche um livro inteiro, que faz a gente querer contar
todos os detalhes para o taxista, o porteiro, os colegas de trabalho,
para todo o mundo.
Morador da Vila Santa Luzia, na Torre, filho de uma ex-carroceira,
tirou fino da miséria e passou no vestibular de Biomedicina da
Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Passou bem. Foi primeiro
lugar entre os alunos das escolas públicas. Não fazia outra coisa. Só
estudava e frequentava o grupo jovem da Igreja da Torre. Deixou a mãe
louca de felicidade. E a Vila Santa Luzia também. As mães de lá
ganharam um rosto para mostrar aos filhos. \"Tá vendo aquele ali. Passou
no vestibular.\"
Aos 22 anos, Alcides ganharia o diploma em setembro. Iria fazer
mestrado e depois doutorado. Mas ele morava no Recife. Foi o bastante
para levar dois tiros na cabeça. Estava estudando à 1h da sexta-feira.
Arrastado de casa por dois homens numa moto. Morreu na frente da mãe e
das três irmãs. Queriam matar outro.
Encontrei com a mãe dele, dona Maria Luiza, hoje pela manhã. Ainda
estava vestida de orgulho, com o jaleco branco do filho. Faltava bem
pouquinho para ela dizer ao mundo que era mãe de um biomédico.
Pouquinho para dizer que não era mais uma. Contou todo o sofrimento.
Disse que ainda se agarrou com os assassinos. Mas não teve jeito.
Conseguiu evitar apenas o terceiro tiro. Os dois primeiros já haviam
interrompido o seu maior sonho. Maria Luiza voltou a ser mais uma. Hoje
é 8 de fevereiro e 386 mães choraram, apenas neste ano, a morte de um
filho.